O CAMINO - Capítulo VII - Grandas de Salime - A Fonsagrada
Paulo Almeida
07 / 05 / 2022
23:00
Saímos cedinho novamente, e logo nos primeiros metros aproveitámos uma fábrica de pão, por cuja porta entreaberta pudémos ver e encomendar uns pães para a nossa jornada.Só depois disto, no centro da localidade, em frente à Igreja, fizémos a nossa oração.
A madrugada deixava ver muitos bancos de neblina ao nível da estrada, e os trilhos de erva tinham orvalho suficiente para deixar as botas encharcada, mas não fazia diferença. Mais cedo ou mais tarde, iria atravessar-se à nossa frente uma daquelas poças de lama que ocupa TODA a largura do trilho.
Por muito que fizéssemos as piadas e os queixumes do "barro", rapidamente ficámos com saudades, ao termos de fazer uma grande troço na beira da estrada, que além de ser mais perigoso, estraga também o ambiente pelo barulho dos carros e dificulta a converseta quando estamos em fila.
No sítio onde deixávamos a estrada e apontávamos ao monte, numa paragem de autocarro, aproveitámos para parar e comer. Estavam duas pessoas a sair, um dos quais era o David, que ainda se demorou um bocadinho connosco, enquanto o outro arrancou.Voltámos ao #camino, subindo o monte, cruzando a estrada e passando por um portão - sim, o #camino, por vezes, tem portões... estão disponíveis para abrir, mas devem manter-se fechados porque de um dos lados desse portão pretende-se manter algum gado a pastar, livremente. Depois de passarmos o portão, lá passámos por vacas, quase no meio do trilho - já lá estiveram, nota-se pelos montes de bosta.
O tempo estava óptimo, primaveril, quase verão. Nos últimos dias tem estado assim, e as temperaturas têm subido até valores pouco normais para Maio. Um chapéu na cabeça, etapas iniciadas mais pela fresquinha, a procura das sombras, a ingestão de água, todas estas «ferramentas» permitiram gerir esse calor.
O grande «marco» desta etapa seria a entrada na Galiza, deixando definitivamente as Astúrias para trás. Faltava pouco, aparentemente, para essa fronteira ser ultrapassada, mas não havia nenhuma indicação do ponto específico onde isso aconteceu. Simplesmente vimos um marco de pedra - igual a todos os outros - cá em cima, no topo do monte... e depois vimos outro marco de pedra no sopé daquele mesmo monte, junto à estrada, este com um aspecto diferente e com referência à Xunta de Galicia.
Não houve brinde, não houve foto, nem comemorações efusivas... simplesmente passámos, quase sem saber bem como, e parecia que tudo ia ser diferente. Logo ali, junto à estrada, o primeiro café onde parámos, pois faltava a cafeína, e a mim também começava a faltar água. Sentados numa esplanada, vimos passar o casal de franceses, que seguiu, enquanto nós ficámos. Um carimbo (C18), meio dedo de conversa - que o dono do café não parecia muito virado para a conversa... pouco mais disse que um «Buen camino», e mais mão cheia de palavras que seria melhor não ter dito: "10 Km, sempre horizontais". Assim que saímos daquele café, começámos a subir.
O caminho nunca pode ser muito a direito, nem muito plano. Corre o risco de não ser interessante, não ter surpresas ao virar das curvas, de ser monótono e fácil, ao não nos desafiar a subir e descer, a fazer rodar a nossa sombra. Apelidei carinhosamente essas subidas e descidas como «Planície Galega», mas esse carinho foi-se embora quando às portas de A Fonsagrada, ao percebemos que a povoação estava ali bem perto, talvez 2 Km, mas numa cota de altitude bastante superior, o que significava uma subida. Mentalizados para essa recta final ascendente, fomos andando e aproximando do destino, num trecho da etapa que teimava em manter-se plano, adiando cada vez a subida, e agravando a sua inclinação para uma encosta íngreme. Assim foi o desfecho desta etapa, uma subida intensa, uma «parede», como alguém disse. Trepámos por ali acima, eu quase sem conseguir respirar, para depois entrar finalmente na povoação...
Mas o albergue municipal não era «logo ali». Andámos mais um pouco, para o centro da povoação, que era maior que Grandas de Salime.
Encontrámos o albergue, fizémos o check-in (C19), «renascemos» com um duche, e eu fui lavar roupa4. Cruzei-me com um peregrino, que não tendo conhecido nem falado com ele, apelidei de Saruman, por ser parecido com o ator Christopher Lee.
Saímos à procura de onde almoçar. O facto de ser sábado complicava um pouco as contas de quem procurava uns menus económicos. Acabámos por almoçar num restaurante mais «pomposo», como prémio da conquista daquele dia, fechando a refeição com um carimbo (C20).
A tarde deu para compras no supermercado, recolher a roupa seca, carregar um pouco o telemóvel, guardar fotografias online para libertar espaço, e depois disso, saímos para ver um pouco do jogo Benfica-Porto num café que nos tinha dado essa esperança. Não houve transmissão do jogo, mas houve um brinde antes de ser hora da missa.
Com uma mensagem apontada para os peregrinos, poucos, que se ligaram àquela comunidade, a missa terminou com o convite para fazermos a bênção de peregrinos, com direito a carimbo da paróquia (C21).
Dali, fomos ver tratar de jantar, uma petiscada no mesmo restaurante onde almoçámos.
O dia acabou e o corpo pedia um descanso profundo.
O saldo para este dia fica em 26.33 Km, agora é dormir!
Outra vez acordar e despachar para sair. A ideia era tomar o pequeno almoço no café, mas ao chegarmos, percebemos que iria demorar porque muitos peregrinos já enchiam o pequeno café e ocupavam a única pessoa que estava a atender. Uma vez que o café tinha um mini mercado na porta ao lado (com ligação interior, pois pertenciam ao mesmo dono), decidimos procurar algo no supermercado que permitisse fazermos umas sandes um pouco mais à frente na etapa.
Os caminhos percorridos, primeiro num caminho "pendurado" nos montes, depois um trilho no meio das árvores que serpenteava pela encosta abaixo, até à estrada que ia culminar na referida barragem. Claro que do outro lado, o que nos esperava era uma subida, bastante intensa, pela estrada. No meio da subida, parámos num hotel que tinha uma esplanada sobre a barragem, e aparentemente onde todos os peregrinos paravam, pois encontrámos uma mão cheia de conhecidos, como a Andrea e a Steffi (alemãs de Samblismo), o David, o casal de espanhóis, a Lili e o Gilberto. Atendidos em português, aproveitei para pedir mais um carimbo (C13).
Acordámos cedo, tal como todos os peregrinos. O pequeno almoço foi servido à mesa, e depois houve oportunidade para uma foto de grupo (mais ou menos... houve duas alemãs que decidiram partir mais cedo, cada uma por si, ignorando o aviso da noite anterior para não fazerem a etapa a solo.)
Voltámos atrás, retomámos o caminho certo através de um portão que eu achei ser de uma propriedade privada, e voltámos a subir... o cenário passou a ser cada vez mais montanhoso, mais elevado e com melhores vistas. E a seguir a isto, mais subidas!, seguidas de subidas mais acentuadas. Passámos as ruínas de um dos «hospitales», que eram basicamente albergues/abrigos para os peregrinos que antigamente tomavam esta rota. Atingimos um topo onde a vista era deslumbrante e o espaço parecia ideal para um piquenique. Ali nos demorámos, a comer e a conversar.
Saímos do albergue, na zona central, e procurámos as indicações para retomar o #Camino. À primeira flecha, fizémos a oração, e depois desatámos a andar, no início a subir - o que era fácil prever pois Tineo fica quase num vale completamente rodeado de montanhas a perder de vista.
A paisagem não trazia nada de novo, a conversa era mais profunda e a ânsia da etapa seguinte já gerava alguma excitação, pelo que quase nada me ficou na memória entre Tineo e Samblismo. Apenas a referência de passar em Borres, já no final da etapa, e de ver uma vending-machine metida numas paredes velhas, guardando para mim a ideia de ser o último ponto onde poderia comprar alguma coisa, antes de nos metermos pela montanha.
A rotina da manhã já se começa a instalar! Acorda-se cedo, mas nunca sou o primeiro a acordar. Num ápice colocamos as tralhas na mochila e depois sair porta fora. Se não há pequeno almoço preparado de véspera, então há que procurar um café que esteja aberto logo desde cedo.
Contornando como possível algumas poças de lama, subindo um troço de muitas pedras até chegarmos à estrada, onde tivémos de fazer um troço (menos de 1 km) em comum com muitos camiões, e foi talvez o trecho mais perigoso, ou assustador, para mim.